Liderar em Tempos de Transformação Exponencial
Por Alceu Costa Junior , Fundador e CEO do Grupo Take 5
Vivemos um dos momentos mais decisivos da história recente das organizações. A velocidade das mudanças tecnológicas, especialmente impulsionadas pela inteligência artificial, está alterando profundamente a forma como trabalhamos, aprendemos, lideramos e nos relacionamos com o conhecimento. O evento HSM+ 2025, realizado nos dias 6 e 7 de novembro no Transamérica Expo Center, consolidou-se como um dos espaços mais relevantes para refletirmos sobre esse novo cenário, trazendo à tona discussões profundas sobre liderança, performance, educação, mercado de trabalho e o papel do ser humano em um mundo cada vez mais automatizado.
Mais do que apresentar tendências, o encontro foi um chamado claro à ação. As mensagens transmitidas pelos palestrantes apontaram para uma realidade inevitável: não se trata mais de escolher se iremos adotar a inteligência artificial em nossas rotinas, mas sim de como e com que velocidade faremos isso. O conceito central que permeou todas as discussões pode ser resumido em uma diretriz essencial: capacitar as pessoas para que se tornem protagonistas da própria transformação.
A partir dos principais insights apresentados no evento, este artigo propõe uma reflexão estruturada sobre os novos pilares da liderança, da aprendizagem e do trabalho no cenário contemporâneo. Não se trata apenas de tecnologia, mas de mentalidade. Não se trata apenas de eficiência, mas de propósito, ética e responsabilidade. Estamos diante de uma redefinição silenciosa, porém profunda, do que significa ser profissional, gestor e líder.

O Novo Cenário Global e a Liderança em Tempos de Incerteza
Um dos pontos mais contundentes abordados no HSM+ 2025 foi o impacto direto dos movimentos geopolíticos na economia e nas organizações. Em um mundo marcado por instabilidades, conflitos, mudanças de eixo econômico e reconfigurações estratégicas globais, entender o contexto deixou de ser um diferencial e passou a ser uma obrigação. As empresas que sobrevivem não são necessariamente as maiores, mas sim as mais adaptáveis.
A mensagem transmitida sobre antecipar cenários, reduzir impactos e transformar riscos em vantagem competitiva reforça uma competência central da nova liderança: a capacidade de leitura estratégica do ambiente externo. O gestor não pode mais se restringir aos indicadores internos. Ele precisa compreender tendências macroeconômicas, movimentos políticos, transformações tecnológicas e impactos sociais, pois tudo isso afeta diretamente a sustentabilidade do negócio.
Outro ponto forte dessa reflexão é a ruptura com a cultura da vitimização. Em tempos difíceis, é comum buscar culpados externos. No entanto, a mentalidade vencedora exige responsabilidade, pragmatismo e ação. Empresas sólidas atravessam governos bons ou ruins, mercados favoráveis ou desafiadores, porque possuem estrutura, gestão e decisão. A liderança do futuro não é passiva, é propositiva.
Paralelamente a esse cenário de pressão externa, há uma transformação estrutural no valor das competências. Profissões técnicas e altamente especializadas continuam relevantes, mas passam a dividir espaço com habilidades humanas como empatia, comunicação, senso crítico, criatividade e inteligência emocional. A tecnologia não substitui o ser humano por completo, mas desloca seu papel. O diferencial passa a ser o que você consegue aproveitar dessas novas ferramentas e o quão rápido se adapta à nova realidade.
Liderar, portanto, nunca foi tão desafiador. O líder moderno precisa ser estrategista, comunicador, desenvolvedor de pessoas, agente de mudança e guardião da cultura organizacional. Ele não pode mais se esconder atrás de cargos ou hierarquias rígidas. Seu valor está na capacidade de inspirar, orientar e criar ambientes onde o aprendizado e a inovação aconteçam de forma contínua.

Aprendizagem Contínua, Personalização e o Fim do Modelo Tradicional
A profunda transformação no modelo de educação corporativa e formação profissional também está no foco do momento. O formato tradicional, baseado em cursos desenhados com uma estratégia instrucional direcionada para atender a média, já não atende à diversidade de perfis, ritmos e necessidades das pessoas. A personalização do aprendizado deixou de ser tendência para se tornar uma exigência.
A aprendizagem do futuro é orientada por dados, impulsionada por inteligência artificial e estruturada a partir das demandas reais do negócio. O foco deixa de ser o volume de horas de treinamento (Finalmente!!!!!) e passa a ser o impacto efetivo na performance. O conceito de aprender fazendo ganha ainda mais força, assim como a necessidade de entregas rápidas, aplicáveis e mensuráveis. Enfim, o real valor do treinamento corporativo aparece forte para todos os níveis de gestão.
A inteligência artificial amplia esse cenário ao permitir que conteúdos sejam consumidos sob demanda, no fluxo do trabalho, exatamente no momento da necessidade. Em vez de longos treinamentos genéricos, as organizações passam a trabalhar com trilhas inteligentes, que se adaptam ao perfil individual do aluno, ao nível de conhecimento, às lacunas de competência e aos objetivos individuais de cada profissional.
Esse movimento também transforma profundamente o papel das áreas de treinamento e desenvolvimento. Elas deixam de ser apenas fornecedoras de conteúdo e tornam-se arquitetas de performance, responsáveis por alinhar a aprendizagem aos objetivos estratégicos do negócio. O valor não está mais em entregar cursos, mas em acelerar capacidades.
Há também a ruptura com o modelo tradicional das universidades. Historicamente, associamos aprendizagem a ciclos fechados, com começo, meio e fim, carregados de ritos de passagem e certificações. O futuro aponta para um modelo de associação vitalícia ao conhecimento, no qual as pessoas aprendem ao longo de toda a vida, em múltiplos formatos, de forma contínua.
Essa lógica cria uma conexão muito mais eficiente entre universidades e empresas, especialmente nos processos de reskilling e upskilling. A formação deixa de ser um evento pontual e passa a ser um processo permanente. Nesse contexto, a empregabilidade não depende mais apenas de um diploma, mas da capacidade constante de se atualizar.

Inteligência Artificial, Gêmeos Digitais e o Trabalho do Amanhã
Talvez nenhum tema tenha gerado tanto impacto quanto às previsões sobre o uso da inteligência artificial. O que hoje já começa a se tornar rotina semanal nas empresas tende a se consolidar como uso diário em um curto espaço de tempo. A IA deixa de ser uma ferramenta para uma atividade isolada e passa a integrar todos os processos organizacionais.
Em um horizonte de poucos anos, será possível carregar grandes volumes de conteúdo dentro de modelos de linguagem para exploração analítica e personalizada. Isso permitirá que cada profissional tenha acesso a um aprendizado moldado à sua realidade, acelerando drasticamente a sua curva de desenvolvimento. Os dashboards de retorno sobre investimento em treinamento também ganharão um nível de precisão jamais visto, totalmente alinhados às estratégias do negócio.
Outro dado que chama atenção é a mudança no comportamento dos profissionais em processos seletivos. A alta aceitação de entrevistas conduzidas por inteligência artificial demonstra não apenas confiança na tecnologia, mas também o desejo por processos mais objetivos, imparciais e acessíveis.
Avançando um pouco mais no tempo, surge o conceito do Coach de IA personalizado, totalmente integrado ao cotidiano do profissional. Esse coach auxiliará na tomada de decisões, na criação de conteúdos, na organização de tarefas e no desenvolvimento de competências específicas, adaptando-se ao estilo e às necessidades de cada pessoa.
O conceito de Gêmeo Digital amplia ainda mais esse cenário. Trata-se de uma representação virtual do indivíduo, alimentada por seus dados, interações, histórico de trabalho e comportamento digital. Esse gêmeo poderá indicar prioridades, sugerir competências a desenvolver, recomendar aprendizados e até simular cenários de decisão. A fronteira entre o físico e o digital se torna cada vez mais tênue.
As organizações passam a operar com arsenais de agentes de IA especializados, responsáveis por tarefas específicas como recrutamento, análise de dados, produção de conteúdo, atendimento e gestão de processos. Isso exige, inevitavelmente, que os colaboradores sejam capacitados para utilizar essas ferramentas de forma estratégica e ética.
O maior risco não está na tecnologia em si, mas na ausência de programas estruturados para sua adoção. Não basta disponibilizar ferramentas; é preciso preparar as pessoas para usá-las com consciência, critério e orientação. Caso contrário, corre-se o risco de criar dependência, desorganização ou perda de controle sobre processos críticos.
Protagonismo, Atitude e Humanidade no Centro da Transformação
O HSM+ 2025 deixou uma mensagem clara e incontestável: a inteligência artificial transformará todos os mercados de trabalho. Nenhuma profissão sairá ilesa. A diferença estará na velocidade e na qualidade da adaptação. Aqueles que se anteciparem, que aprenderem mais rápido e que se abrirem à mudança, terão mais resultados e maior empregabilidade.
Estamos, sem dúvida, diante de uma grande ameaça, mas também de uma oportunidade histórica. A tecnologia não elimina a necessidade do ser humano; ao contrário, amplia sua responsabilidade. Quanto mais automatizado o mundo se torna, mais valiosas se tornam as capacidades humanas.
A liderança do futuro será construída sobre três pilares fundamentais: visão estratégica, capacidade de desenvolver pessoas e compromisso com o aprendizado contínuo. Organizações que ignorarem esse movimento correm sério risco de obsolescência. Já aquelas que o abraçarem de forma estruturada, ética e intencional ocuparão posições de protagonismo.
Capacitar pessoas não é apenas dotá-las de habilidades técnicas. É dar sentido ao trabalho, criar ambientes psicologicamente seguros, estimular a curiosidade, valorizar a diversidade de pensamentos e incentivar o crescimento individual e coletivo. É compreender que o maior ativo das empresas continua sendo, e sempre será, o ser humano.
O futuro do trabalho não será definido exclusivamente por algoritmos, sistemas ou máquinas. Ele será definido, sobretudo, pelas decisões que tomarmos agora. Liderar essa transformação exige coragem, humildade e atitude. Não há mais espaço para espectadores. Mais do que nunca, o momentoexige protagonistas.


