Eu e a IA, a IA e eu: uma reflexão pessoal
Ultimamente, tenho pensado bastante sobre como a Inteligência Artificial vem impactando a minha vida. Primeiro grande impacto percebido: desbloqueei habilidades que jamais pensei que teria, como programação (para não programadores) e design (para quem não é designer). Segundo: minha ansiedade aumentou consideravelmente nos últimos dois anos. Terceiro: percebi que meu tempo reduziu absurdamente, seja no trabalho ou fora dele. Este último foi o que mais doeu. Mas, me pergunto: como é que isso aconteceu? Será que eu entendi errado ou uma das promessas mais tentadoras da IA era justamente a possibilidade de otimizar tarefas e garantir que tivéssemos mais tempo para analisar dados, tomar decisões estratégicas e, com sorte, deixar de trabalhar num horário razoável?
Antes de tudo, que fique claro: eu acho a IA fantástica e estou empolgadíssima com o que tenho visto nascer e crescer a partir dela. No meu campo de atuação, as possibilidades ampliaram muitíssimo e os próximos passos dos produtos e serviços que tenho ajudado a criar na área de Educação Corporativa e Treinamento são realmente promissores. Hoje, a IA e eu mantemos uma relação que já alcançou o status de “em um relacionamento sério”. Por outro lado, tenho consciência de que nunca passei tanto tempo online nem trabalhei com tantas abas abertas no navegador ao mesmo tempo. Também nunca li tão pouco, seja por prazer ou por necessidade, nem economizei tanto com lazer e passeios em família.
É por essas contradições que acredito que precisamos olhar de forma mais crítica e honesta para o que estamos vivendo se não quisermos ser atropelados pelo que muitos já chamam de “A Quarta Revolução Industrial” (ou “Indústria 4.0”).

Apesar dos ganhos extraordinários que tenho obtido, sinto que a IA adicionou uma nova camada de trabalho aos meus dias. Imersa na minha ansiedade, penso que não basta usar o Chat GPT, o Gemini ou o Claude: eu preciso ter todas as ferramentas possíveis (para compará-las, né?), dominá-las para fazer o melhor uso delas (já me inscrevi no curso de como criar agentes mais inteligentes) e consumir análises sobre vantagens e desvantagens, falhas apontadas, novos lançamentos, etc.(assino ótimas newsletters de tendências em tecnologia – se quiser, passo as dicas). É uma agitação e uma angústia movidas tanto por curiosidade e encantamento como por medo de ficar para trás e perder oportunidades importantes.
Imagino que, assim como eu, muita gente compartilhe esses sentimentos. A maioria, porém, ainda não se deu conta – seja por falta de tempo para pensar no assunto ou por pouca inclinação a praticar o autoconhecimento. Duas razões potencialmente perigosas, vide os impactos que o uso indiscriminado da tecnologia vem causando na saúde mental de adultos, adolescentes e crianças, os riscos ambientais que o consumo intensivo de gigantescos data centers representam para o planeta, as ondas de demissão em massa que já se tornaram muito mais comuns do que gostaríamos, entre outros desastres. Enfim, é melhor começar a pensar.
Quando não temos tempo para sentir e, depois, pensar sobre as experiências que vivemos no dia a dia, o aprendizado fica mais difícil, a criatividade murcha, a comunicação fica truncada e as nossas decisões perdem coerência com o que verdadeiramente somos e buscamos. No que tange à avalanche de informações, ideias e possibilidades que a IA traz, viver em ritmo non-stop provavelmente fará com que a tecnologia afete nosso corpo, mente e espírito sem que tenhamos condições de tomar decisões amadurecidas a respeito.
Todos precisamos de tempo. O tempo é o senhor de tudo e também o nosso bem mais precioso. Quem já chegou ou está próximo dos quarenta, por exemplo, vai entender quão ridículo é o pensamento “Adoraria ter essa cabeça quando tinha meus 20 e poucos”, pois é naturalmente impossível absorver a sabedoria da vida sem passar pelos anos. Viver exige atravessar o tempo respeitando o ritmo absoluto dele.
Também tenho pensado bastante sobre como viver a vida no “modo IA” pode não ser uma decisão muito sábia se a nossa prática diária – e aqui me refiro especialmente a questões profissionais – não vier acompanhada de intenção. A corrida para conhecer, escolher, utilizar as ferramentas de IA e criar coisas com a ajuda dela só valerá a pena se a prática servir a um objetivo claro. Quero dizer: se desenvolvermos projetos, criarmos novos serviços ou produtos sem clareza de intenção, sem ter certeza de para quê exatamente estamos fazendo uso da inteligência artificial, provavelmente nos perderemos na infinidade de ideias, e sugestões, e caminhos, e “quer que eu me aprofunde nesse tema?” que ela nos oferece. No final, ao invés de economizar tempo, teremos passado muito mais horas distraídos e encantados com possibilidades que simplesmente não serviam às necessidades daquele momento. Ou, pior, teremos produzido coisas absolutamente desnecessárias e descartáveis.
Além de tempo para amadurecer sentimentos e ideias e de intenção para não nos perdermos no caminho, é necessário presença se quisermos nos manter saudáveis e profissionalmente relevantes em tempos de IA. Não me refiro à presença física, mas a estar presente integralmente e entregar-se àquilo que se faz. Esse tipo de presença ocorre quando colocamos nossa bagagem, nossas ideias e nossos talentos a serviço da criação de algo. Ela carrega nossa personalidade, voz, defeitos, qualidades e tudo o mais que nos faz únicos. É a ausência da presença que faz com que o LinkedIn ande tão cheio de textos pasteurizados e chatões, cheios de emojis, travessões e frases de efeito típicas de IA (“não é sobre X, é sobre Y” é a campeã delas). No fim das contas, não importa se é um texto, uma apresentação em Power Point, um produto físico ou uma plataforma online: quando abrimos mão da nossa presença/capacidade e delegamos nossas produções integralmente à IA, eu me pergunto: o que restará para nós? Se é justamente a nossa humanidade que nos diferencia da máquina, por que raios delegamos a nossa criatividade – algo intrinsecamente humano – à máquina? Hoje, o que tenho recomendado a mim mesma é seguir usando tudo o que a tecnologia me permitir, mas garantindo que o que eu produzir – com ou sem a ajuda da minha assistente inteligente – esteja sempre repleto de mim, da minha presença.
Este texto é um resumo de alguns sentimentos e ideias que a minha experiência com o uso da inteligência artificial tem gerado. E você? Já parou para pensar sobre como anda a sua relação com a tecnologia? Vale a reflexão.

